agosto 20, 2013Relatos de Uma Blogueira

[Relatos de Uma Blogueira] O Jogo dos 6 Erros

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A maior parte dos meus amigos são pessoas que tem a leitura em dia, leem sempre e tudo que está pela frente.

Tipo, eu.

Daí conhecemos novas pessoas, fazemos novas amizades e vai descobrindo mais a respeito delas.

No meu trabalho eu empresto meus livros para várias pessoas. Eu sempre faço aquele blá blá blá básico de ‘cuida direitinho, não amassa, não dobra, não suja, não coma perto’. Como eu tenho muitos livros e de diferentes gêneros, então eu consigo atender boa parte dos leitores do meu setor. MENOS UMA.

Assim, eu não gosto de desafios, sabe? Mas detesto quando me desafiam. Fica aquela sensação de que eu tenho que provar o meu valor e mostrar para a pessoa que eu consigo, sim! E foi aí que a Nadine entrou.

Erro número 1: Ela – me – desafiou.

Nadine é a minha amiguinha de trabalho. Eu gosto muito dela. É engraçada, divertida, conhece e fala com todo mundo na empresa, da Presidência ao 2º subsolo (coisa que me irrita bastante, principalmente quando estamos saindo para almoçar). Ela é cativante e gosta do rock n’ roll. Ou seja, meu número em questão de amigos para colocar aqui no coração. Só que ela me desafiou. Não foi nada expositivo. Mas ficou subentendido e aí eu já estava no jogo.

Seguem os diálogos.

– Amiga Nadine, como você, uma criatura formada em Letras, não lê mais de 5 livros por ano? O Marco te emprestou um livro que você está há mais de 5 meses e não termina! Você sequer está lendo! Pode falar.

– Rapha, eu estou lendo, sim. Mas é uma leitura mais complexa. Não é que nem esses livros de mulherzinha que você fica lendo.

– Deixe meus livros de mulherzinha fora disso. Estamos falando de você. Você só quer ficar lendo livros da época de mil novecentos e bolinhas, leituras difíceis, José Saramago, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, literatura brasileira lá da época que descobriram a cana de açúcar e ainda vem falar do que eu leio?

Erro número 2: ela ri do que eu leio. E aí começou o caos. Era só aparecer o tópico livro que eu estava sempre no meio porque ela fazia questão de me empurrar para poder ficar rindo e falando para as outras pessoas os títulos e gêneros do que eu estava lendo. E também porque na hora que falam LIVROS eu fico: ‘aonde, aonde, aonde?’

E todas as vezes ela ficava me provocando, falando que eu só leio livros de romance, de mulherzinha, Nicholas Sparks para cá e quando não, livro de sem vergonhice explícita. O problema é que ela sabe que eu não leio só esse tipo de livros. Eu leio muito de tudo, mas tenho as minhas preferências.

– Eu vou trazer um livro para você, Nadine. Lê. Se não gostar eu nem tento mais nada porque aí o problema não é comigo.
– Pois traga.

Eu, toda feliz, achando que agora ia provar um ponto levei Amante Sombrio, da JR Ward. Fala sério! Se a pessoa não gosta da Irmandade da Adaga Negra eu já vou olhar desconfiada pra ela e duvidar do seu gosto literário.

Erro 3: a única autora de vampiros que serve para ela é Anne Rice. E foi aí que tudo se perdeu. Ela não chegou a ler nem o primeiro capítulo inteiro de Amante Sombrio e eu tomei o livro. Fiz o meu discurso: falei que nunca mais emprestaria nenhum dos meus livros, que se a pessoa não gosta dos meus vampiros tesudos da Irmandade *Rhage dando um sorrisinho de lado* tem algum problema, que ela que ficasse lendo os livros chatos dela.

Eu me ofendi.

Continuamos a falar sobre livros. Ela sempre pergunta sobre o que eu estou lendo. Eu mostro, ela pergunta sobre o que se trata, já faz todo o seu veredicto apenas olhando para o livro.

Erro 4: A Nadine tem um sério problema: ela julga o livro pela capa. Eu sempre mostro os livros que eu estou lendo e ela faz comentários aleatórios do tipo: ‘Esse livro tem a capa bonita’ (quando eu estava lendo Trezes Relíquias); ‘Esse livro tem a capa igual a todos os outros do mesmo autor, Rapha’ (quando eu estava lendo O Casamento); ‘Esse livro tem a capa simpática, mas ele é de mulherzinha, né?’ (quando eu estava lendo Azar o Seu!); ‘Quem é o autor desse livro? A capa ficou bem interessante, eim?’ (falando de Laços de Sangue); ‘Esse aqui tem cara de comédia romântica, só pelo título.’ (falando de O Projeto Rosie). ‘Esse aqui tem cara daqueles livros de sexo que você gosta, só por essa capa tão sugestiva’ (falando de Amante Finalmente) ‘Esse aqui tem cara de quem vai morrer e o livro é triste, não quero’ (falando de Como Eu Era Antes de Você);

Conseguiram entender o meu drama? Ela já dá sua inclinação literária pela capa. E sim, isso é um problema quando você intimamente ainda tem esperanças que ela leia livros indicados por você.

Erro 5: fica de frescuragem que ler dentro de ônibus faz ela querer vomitar e dar dor de cabeça. Não me atirem pedras, mas eu fico 4 horas dentro de ônibus de segunda a sexta e nunca senti nada disso. Então, foi um ponto que eu tive para ficar debochando dela.

– Isso é desculpinha para não ler, isso sim!

– Não é, Rapha! A formatação e a história do livro são bem complexas!
– Então leia isso em casa e pegue outros livros para ler no ônibus. Essa desculpa não, cola amiga Nadine.

Um belo dia, ela me falou de um livro que a filha da amiga dela tinha comentado no Facebook dizendo que era LINDO: A Culpa é das Estrelas, e que ela tinha ficado interessada em ler.

Eu surtei.

– EU JÁ FALEI PARA VOCÊS VÁRIAS VEZES QUE ESSE LIVRO É LINDO, QUE VOCÊ DEVERIA LER, QUE É EMOCIONANTE! – bati com a mão na mesa, transtornada, e bem… ofendida. – E DEPOIS QUE A FILHA DA SUA AMIGA DIZ QUE ADOROU VOCÊ VEM FALAR PARA MIM QUE QUER LER O LIVRO? NÃO QUERO MAIS PAPO COM VOCÊ.

Ela tentou explicar, disse que não ia ler, que só estava coment… mas eu não quis saber. A vida é debochada com você. Tendo uma amiga fanática por livros, o que ela faz? Vai pegar impressões e diz que quer ler o livro depois da atualização de um status no Facebook. Erro 6: ela não confiava no meu gosto literário.

Depois disso, eu cheguei em casa e olhei as minhas duas estantes, disposta a encontrar um livro indicado POR MIM que fizesse essa criatura ler. O que eu sabia: ela não gosta de livros em que o foco é romance (Rapha, essas coisas não acontecem de verdade. Então, é difícil fazer com que eu acredite) – descartei duas prateleiras de livros da Novo Conceito -, não gosta de livros de vampiros que não seja Anne Rice – descartei uma prateleira dos meus livros de vampiros -, não gosta dos livros que as pessoas morrem, não lembra de ter lido nada erótico, só gosta de livros nacionais que foram publicado entre 1600 e 1900, nunca leu Harry Potter – heresia!! – e se eu não gosto de livros de anjos, vai ser complicado indicar algo para ela.
Tirando tudo isso, me sobraram poucas opções. Mas eu descobri que por algum milagre divino da literatura, talvez, ela gostasse de um.

Quase chorando eu fui conversar com ela.

– Amiga Nadine, POR FAVOR, POR FAVOR, POR FAVOR! Me deixa trazer um livro para você ler! Sabe aqueles livros que você sente que todo mundo na vida tinha que ler? Então, é esse! Não é romancezinho! EU JURO! Se você não gostar desse EU PROMETO, PROMETO, PROMETO que nunca mais indico livro nenhum para você! Nem vou ficar rindo porque você não lê, nem vou ficar te torrando a paciência porque você diz que eu nunca vi Star Wars mas você nunca leu Harry Potter, não vou mais zoar você quando estivermos conversando com outras pessoas sobre livros, não vou! Eu desisto e não toco mais no assunto!

Acho que ela percebeu o meu estado drástico. Mas dessa vez eu estava falando sério. Se ela não gostasse, eu realmente não iria mais insistir porque não teríamos nunca compatibilidade literária.

 ACERTO 1: Ela aceitou.

No outro dia eu levei com muita alegria Extraordinário da R.J Palacio. O irônico, talvez seja, que na capa atrás do livro está escrito:

Não julgue um livro pela capa. Não julgue um menino pela cara.

A parte boa agora é que ela leu o livro em dois dias. Inclusive dentro do ônibus. E adorou o Auggie. Eu fiquei tão surpresa e tão feliz ao mesmo tempo que quase não acreditei que ela tinha terminado e que ainda queria emprestar para a irmã!

Sabe aquela sensação de: ‘O MUNDO NÃO ESTÁ PERDIDO!’? Foi exatamente assim que eu me senti. E orgulhosa. Eu consegui um livro que não tinha romance, vampiro, morte dos personagens e ela ainda adorou por causa da personalidade do personagem principal!

Não consegui resistir. Levei A Culpa é das Estrelas para ela. Aí já começou:

– Blá blá blá romancezinho, blá blá blá ela vai morrer…

– Ela não morre. – suspirei, cansada dessa história já.

– Mas alguém morre.

– Eu não posso te dizer. Lê e me conta.

E começaram as mensagens de texto novamente e tudo se repetiu. E eu quis dar piruetas quando ela falou:

– Gostei Rapha. Tem romance, mas não é o foco do livro.

Eu estava ganhando a batalha e não quis desistir. O que eu fiz? Entreguei Jogos Vorazes, porque é isso que eu faço.

ACERTO 2: Ela gostou tanto de Jogos Vorazes que não parou mais. Rapidinho foi para Em Chamas e agora está em A Esperança.

E ainda teve a audácia de fazer o seguinte comentário: Eu ainda estava e recuperando do Augustus e você me vem com esse livro que todo mundo se mata?

ACERTO 3: Ela não parou mais.

E quando eu digo isso, podem levar ao pé da letra. Receber mensagem no celular meia – noite pedindo para que eu não esquecesse o próximo livro no outro dia porque o que atual já estava acabando? Fichinha. Receber mensagem na madrugada perguntando quem morreu? Risadas histéricas. Receber mensagens na madrugada pedindo spoiller? Tortura através do celular.

E foi assim que eu consegui fazer com que mais uma amiga se juntasse ao meu círculo literário. Eu fiquei tão feliz com esse obstáculo superado que quase não acredito ainda que tive essa capacidade. Meus olhos brilham como dois diamantes quando ela diz que vai lendo no ônibus (a mesma pessoa que falou que passava mal) ou que ficou até a madrugada lendo para concluir o capítulo (pois ela é sistemática) ou que já fica falando para as suas próprias amigas sobre os livros que está lendo.

Para o tanto de erro que cometemos, os 3 acertos valeram mais do que qualquer um.

Quando eu digo que vale a pena, é porque realmente vale.

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