novembro 09, 2015Editora Seguinte, Resenhas

[Resenha] Mentirosos

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gsTítulo: Mentirosos Título original: We Were Liars Autor: E. Lockhart Ano: 2014 Editora: Seguinte Número de páginas: 272

Tirando o fato de que desde o início nos questionamos o que aconteceu no acidente, […] não há mistério.

Desde a publicação deste livro, ouço falar muito dele.  Primeiro no site americano Goodreads, e mais tarde no Skoob. Dei uma espiada na sinopse, pensei cá com meus botões que era um suspense e eu amo suspenses, então por que não? Adicionei à lista e finalmente consegui ler. É um livro bem rapidinho de ler, relativamente curto e a narrativa fácil de acompanhar.

Nós somos Sinclairs. Lindos. Privilegiados. Danificados. Mentirosos. Nós vivemos, ao menos durante o verão, em uma ilha particular na costa de Massachusetts. Talvez isso seja tudo o que precise saber.

Vamos começar pelo título? O título me chamou a atenção de primeira. Pensei em dissimulações, intrigas, corrupções e drama. O título não é explicado no livro. Li no Goodreads que foi editado porque acharam que a cena do livro em que se explica porque eles eram conhecidos como mentirosos é muito lenta e não queriam comprometer o ritmo da história. Bem, eu achei o livro lento; e para mim isso não é ruim, mas essa justificativa não fez sentido. Fora que o título acabou por ficar solto e sem muita relação com a história, não sei como isso foi preferível a uma “cena lenta”.

O livro é contado pelo ponto de vista de Cadence. Ele começa com alguns trechos instigantes a respeito da família Sinclair. Trechos que me fizeram esperar por algo que fosse tão estimulante quanto à trama da série de TV Revenge. Não foi. A história entregou bem menos, mas teve seu valor. Cadence começa com uma introdução à família e aos Mentirosos: ela, Johnny, Mirren e Gat e à rotina deles na ilha particular da família.

Seja um pouco mais gentil do que deve ser.

Desde o início, é mencionado que aconteceu um terrível acidente na ilha no verão em que Cadence tinha 15 anos e o grande suspense da história é descobrir o que aconteceu, porque durante o acidente Cadence sofreu uma lesão cerebral e não se lembra dos detalhes daquele fatídico dia. Ela passa dois anos sem ir à ilha, tentando em vão se comunicar com os Mentirosos sem sucesso, porque nunca ouvia nada vindo deles de volta. No verão de seus dezessete anos, ela retorna à ilha com a esperança de que pudesse compreender o que aconteceu.

Comecei a ler o livro sem saber o que esperar, e para mim ele não é um suspense. Tirando o fato de que desde o início nos questionamos o que aconteceu no acidente, porque ninguém respondia para ela a verdade quando perguntava e este era outro porquê, não há mistério. A história se desenvolve com Caddy contando sobre seus dias na ilha no verão de seus dezessete anos, mas não há aquela estrutura característica de um suspense em que vamos adquirindo no decorrer do livro peça após peça até conseguirmos montar todo o cenário, ou finalmente alcançamos o clímax da trama. Descobrimos o segredo no final, de uma hora para outra, simplesmente porque Cadence se lembra do que aconteceu.

Aqui estou congelada, quando mereço queimar.

O livro é melancólico, bem melancólico. Em parte porque ela sofre com sequelas do seu acidente e tem que conviver com constantes dores, em parte porque assistimos a frustração dela em não conseguir lembrar-se das coisas e em parte porque tem toda a subtrama do relacionamento dela com Gat. Gat não é parte da família de fato e sim sobrinho de um dos empregados na ilha; Cadence se apaixona por ele. Ele é um rapaz cheio de perspectivas sobre fazer o bem para um grande número de pessoas e sobre o que ele lê e sobre o que ele acredita; sinto que o romance entre eles se desenvolve mais pela convivência do que outra coisa.

Eu posso entender o charme que ele tinha, mas não consegui ver nenhum traço em Cadence que o atraísse, considerando a pessoa que era. Ela não tinha algo de especificamente especial, era um tanto egoísta por conta de sua criação e não tinha grandes reflexões sobre o mundo que existia fora dos limites da ilha ou do dinheiro de sua família. Para mim, ela foi uma poça de água bem rasa, embora tenha amadurecido com os dois anos subsequentes a seu acidente.

O silêncio é uma camada protetora sobre a dor.

Os personagens de Johnny e Mirren também ganham destaque, afinal eles eram mesmo um grupo e a maior parte das cenas é deles juntos, suas conversas e sonhos e planos. O livro tem uma pegada bastante adolescente, bem ingênua e pouco holística sobre a realidade das coisas. Fora que, tirando Gat, eles realmente eram adolescentes mimados e privilegiados e um tanto egocêntricos. Mas isso, surpreendentemente, não me incomodou tanto quanto seria o natural. Talvez porque este não fosse foco, fosse somente um detalhe. Na maior parte do tempo eu tentava ler nos diálogos deles o que não estava escrito, o que não estava evidente.

Ninguém aqui é um criminoso. Ninguém é um viciado. Ninguém é um fracasso.

Porém, como eu disse, quando a verdade veio, foi como uma bala perdida. Eu não fazia ideia, de verdade. Não fazia ideia. Nunca desconfiei daquele final. Penso agora que deveria, porque geralmente analiso todos os cenários, mas não desta vez. Acho que estava muito concentrada no presente e no concreto para ter uma visão além, principalmente porque tinha em mente que, já que foi algo que aconteceu no passado, ele deveria estar exposto no agora de alguma forma.

Acho que o twist, a pegadinha, a surpresa, como queiram chamar, foi muito boa. Muito boa. Eu não esperava. Eu não imaginei nem em um universo paralelo. E ao mesmo tempo, assim como é todo o tom do livro, é extremamente triste. Eu não chorei ou quis arrancar meu coração pela boca como algumas pessoas, acho que apesar de tudo não me conectei muito a esse livro, talvez porque estava muito preocupada em compreendê-lo e dissecá-lo, talvez porque realmente tive dificuldade em me interligar com os pensamentos muito juvenis de Cadence e do resto do grupo, mas é triste. O livro me deixou com uma sensação de arrependimento, de desperdício, de destino roubado, sabe? Acho que quem leu vai entender do que estou falando.

Não há nem uma palavra no Scrabble para descrever como me sinto mal.

Mas no geral, o porquê aconteceu o que aconteceu? Achei fraco, achei digno de ser algo pensado por pessoas que não conhecem bem o mundo. Não compreendi a lógica por trás da ação, não entendi como esta ação representava uma solução. A meu ver, dois anos depois o problema ainda persistia e acho que não cabia a eles mudar aquilo.

Não aceite o mal que você pode mudar.

Este trecho descreve perfeitamente o porquê de tudo. Esta frase é, no mínimo, fantástica. Adoro a ideia, inclusive o livro é cercado de frases de efeito que levarei para a vida. Mas o que aconteceu aqui foi um erro de cálculo. Infelizmente, não é todo mal que podemos mudar. E tentar pode nos destruir.

Se eu recomendo? Sim. Ainda estou digerindo a história, matutando algo aqui, recalculando algo ali, mas eu desejo isso às pessoas. Essa inquietude, essa reflexão. O livro não me conquistou e arrebatou perdidamente, mas é um livro em que vou pensar por algum tempo ainda, é um livro que terei muito gosto em debater e dissecar um pouco mais com pessoas que também leram. É um livro que marcou.

No entanto, eu acho que é um livro que deve ser lido primeiro e depois que devemos ler resenhas, e reviews, e comentários. Acho legal que a pessoa faça como eu fiz, e mergulhe nele sem esperar nada. Então se você ainda não leu o livro e está lendo esta resenha, não leia mais nenhuma; vá ler o livro primeiro. E depois volta para conversar a respeito? 🙂

A ilha é nossa. Aqui, de certa forma, somos jovens para sempre.

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2 Comentários

  • Camila Palmeira
    15 novembro, 2015

    Oi Gabi, eu amei este livro, amei a narrativa da autora, fiquei encantada com a maneira que descreve os personagens, é poético, é bonito.. E tb fiquei abalada com o desenrolar de tudo.. foi surpreendente!
    Linda Resenha! ^^
    Adoraria debater o livro com vc, rs..
    Beijos Mila

    • Gabriela
      17 novembro, 2015

      Oi de novo! 😀

      Que bom que gostou *_*

      Engraçado que agora um tempinho depois de ler o livro, as memórias dele estão me fazendo gostar mais dele. Dá pano para manga a discussão deste livro…

      Muito obrigada pelo carinho!

      Beijocas <3

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