Editora Companhia das Letras, Resenhas

Título: A Vida Invisível Título original: Autor: Martha Batalha Ano: 2016 Editora: Companhia das Letras Número de páginas: 188

Este foi um livro que tocou profundamente meu lado feminista. Eurídice é minha avó, que queria ser cantora, mas só aprendeu a limpar casas.

Oi gente! Sei que vocês devem estar lendo com a voz da Rapha, mas quem vos escreve é a Cami! Fui colunista no Equalize da Leitura em 2012/2013, acabei saindo e agora estou retornando porque a Rapha estava louca de saudades da minha pessoa, uhul! Espero que gostem do meu trabalho e… Vamos lá!

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“Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido”. Essa frase diz muito sobre a vida de Eurídice, nossa personagem principal, que vive no Rio de Janeiro, na década de 1940, e descobre as desvantagens de ser invisível.

Eurídice era uma garota que crescia com muitos sonhos em uma época em que não era possível realizá-los. Ela queria ser tantas coisas, e teria sido, se não fosse obrigada a ser somente bela, recatada e do lar.

Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas.

Após sua irmã mais velha, Guida, ter fugido de casa, decepcionando Seu Manoel e Dona Ana, Eurídice prometeu que seria a melhor filha do mundo e, assim, tratou de largar o sonho de ser flautista e casou-se com Antenor, um homem bom, muito bom, pois colocava dinheiro dentro de casa e não levantava a mão para a esposa.

Nos momentos em que ficava em casa, quando o marido saía para trabalhar e os filhos, Cecília e Afonso, iam para a escola, Eurídice começou a inventar distrações para sentir-se viva.

Primeiro, foram as receitas. Eurídice ficou tão boa nessa coisa de cozinhar que cogitou até mesmo publicar as receitas que tinha escrito em seu caderninho, mas Antenor tinha razão: quem, afinal, compraria um livro escrito por uma dona de casa? Depois, foi a costura, mas quando Antenor viu a bagunça que a casa tinha se tornado, proibiu tudo aquilo. Por último, depois de muito tempo olhando a estante cheia de livros na sala, com a companhia da solidão e da Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice, Eurídice comprou uma máquina de escrever e nada poderia fazê-la parar de contar sua história. A história da mulher que poderia ter sido.

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Este foi um livro que tocou profundamente meu lado feminista. Eurídice é minha avó, que queria ser cantora, mas só aprendeu a limpar casas. Eurídice é minha mãe, que foi tão julgada por ter engravidado antes de casar e por não ter casado depois de engravidar. Eurídice sou eu, que nunca pude namorar antes dos 18 anos, enquanto os garotos da família namoravam antes dos 15.

Martha Batalha foi brilhante ao retratar a invisibilidade de Eurídice Gusmão. O que mais me chamou a atenção foi o fato de que Eurídice não apanhava do marido, não era proibida de sair, fazer suas vontades e até pôde escrever um livro e fazer faculdade, pois Antenor queria vê-la sorrindo. Muitas pessoas poderiam pensar: mas que vida boa, que homem bom! E aí está o problema: Eurídice não queria escrever as receitas para jogá-las no lixo, costurar escondida do marido ou escrever um livro e trancá-lo na gaveta. Eurídice queria mostrar pro mundo quem era, Eurídice queria ser. Em um livro pequeno e com muitas histórias entrelaçadas, Martha contou a história de milhares de mulheres que poderiam ter sido.

“Estou escrevendo um livro. É sobre a história da invisibilidade.”

O jantar seguiu em silêncio. Ninguém se importou em saber mais sobre o livro, se por acaso ela queria ver a obra publicada, se era uma história de amor ou de aventura, e quem era ela para começar a escrever assim. Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa, ou que era hora de acordar para a escola.

Quantas Eurídices ainda vivem por aí?

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