Editora Planeta, Resenhas

Título: Diário de uma cúmplice Título original: Autora: Mila Wander Ano: 2016 Editora: Planeta Número de páginas: 334

Apesar de ser uma história simples, Diário de uma cúmplice conseguiu equilibrar o romance, a ação policial e o erotismo, deixando os fãs desses três gêneros satisfeitos com a narrativa criada pela autora.

Christine Monteiro é uma jovem bonita, de cabelos avermelhados e que vive de forma simples, sendo educadora de uma creche, não tendo muitos amigos e nem muitas paixões. Após perder seus pais em uma tragédia quando tinha 15 anos, Chris fechou-se em seu mundo e esforçou-se muito para manter uma vida super tediosa.

Em seu aniversário de 25 anos, Lessy, sua melhor amiga (ou única?), decide lhe presentear com um diário, aconselhando-a a usá-lo para desabafar e deixar de guardar suas tristezas somente para si. Sem muita escolha, Chris começa a escrever sua história.

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O tédio na vida de Chris começa a mudar quando ela se depara com o cara mais lindo que já havia visto na vida. Quando ele chegou perto, porém, não perguntou se ela tinha telefone. Perguntou se tinha um carro. E a ameaçou caso não cooperasse, já que a polícia estava logo ali, pronta para atirar naquele bandido gostoso. Ops, perigoso!

Ainda dava para ouvir algumas sirenes enquanto o acomodava e pegava uma toalha, a fim de estancar o seu ferimento. Ele tirou o casaco, a camisa e a calça bem depressa, mostrando um corpo sarado de academia que, não fosse pelo machucado horrível que não parava de sangrar, me deixaria completamente absorta.

Após salvar a vida do bandido misterioso – Miguel – e levá-lo são e salvo até a casa de sua quadrilha, por livre e espontânea vontade, Chris decide que já passou muitos anos da sua vida sendo normal e, ao invés de voltar correndo pro seu apartamento, a jovem decide que é hora de se aventurar.

Foi então que tive uma ideia bem maluca. Não sabia se daria certo, porém, naquele instante, não me questionei muito. Pintava os cabelos de vermelho-vivo havia anos, mas aquela nova fase da minha vida merecia uma mudança drástica. […]

Quando tive coragem de me olhar no espelho, o espanto foi enorme: estava tão diferente que parecia outra pessoa. Era a mulher forte, decidida e corajosa que enfrentava todos os perigos. Aquela não era exatamente eu, mas agora fazia parte de mim.

Eu seria uma loira fatal.

A história, narrada em primeiro pessoa em forma de diário, nos mostra que Christine tem uma vida normal que lhe é suficiente, até perceber que o mundo não é só aquilo que ela vê. A partir do momento em que se envolve com Miguel e descobre que é capaz de pegar em uma arma e matar um homem, não faria sentido algum voltar a dar aula para crianças e fingir que isso era felicidade.

Ignorando o começo da história, fantasioso demais, posso afirmar que Mila Wander criou um romance erótico policial muito bom. O tédio da vida de Chris é o tédio das nossas vidas, que acordamos cedo para trabalhar ou estudar, que chegamos cansados em casa, que não temos muita vontade de sair ou paquerar pessoas, de fazer esforço para não demonstrar nossos defeitos e mágoas e ressentimentos e tristezas e estresses e problemas e esquisitices logo nos primeiros minutos de conversa.

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Christine é uma personagem fascinante que vira Tatiana para entrar na quadrilha. Em alguns momentos é irritante vê-la tão Chris quando deveria ser tão Tati, mas é completamente aceitável que a nova personalidade forte não consiga inibir todas as fraquezas de seus 25 anos vividos.

Dessa forma, o romance entre Chris e Miguel, sua amizade com seu xará, Christian e sua rivalidade com Cristal, namorada de Miguel, faz o leitor pirar de tesão. Tesão não só pelas narrativas eróticas, mas também pela vida criminosa da quadrilha, pelos acontecimentos rápidos e inesperados, pela amizade tão bonita que se cria na história e pelo final do livro, totalmente imprevisível.

Apesar de ser uma história simples, Diário de uma cúmplice conseguiu equilibrar o romance, a ação policial e o erotismo, deixando os fãs desses três gêneros satisfeitos com a narrativa criada pela autora.

– Eu não presto, Christine. Também não te mereço. Mas por não prestar é que vou te ter sem merecer.

Editora Companhia das Letras, Resenhas

Título: A Vida Invisível Título original: Autor: Martha Batalha Ano: 2016 Editora: Companhia das Letras Número de páginas: 188

Este foi um livro que tocou profundamente meu lado feminista. Eurídice é minha avó, que queria ser cantora, mas só aprendeu a limpar casas.

Oi gente! Sei que vocês devem estar lendo com a voz da Rapha, mas quem vos escreve é a Cami! Fui colunista no Equalize da Leitura em 2012/2013, acabei saindo e agora estou retornando porque a Rapha estava louca de saudades da minha pessoa, uhul! Espero que gostem do meu trabalho e… Vamos lá!

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“Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido”. Essa frase diz muito sobre a vida de Eurídice, nossa personagem principal, que vive no Rio de Janeiro, na década de 1940, e descobre as desvantagens de ser invisível.

Eurídice era uma garota que crescia com muitos sonhos em uma época em que não era possível realizá-los. Ela queria ser tantas coisas, e teria sido, se não fosse obrigada a ser somente bela, recatada e do lar.

Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas.

Após sua irmã mais velha, Guida, ter fugido de casa, decepcionando Seu Manoel e Dona Ana, Eurídice prometeu que seria a melhor filha do mundo e, assim, tratou de largar o sonho de ser flautista e casou-se com Antenor, um homem bom, muito bom, pois colocava dinheiro dentro de casa e não levantava a mão para a esposa.

Nos momentos em que ficava em casa, quando o marido saía para trabalhar e os filhos, Cecília e Afonso, iam para a escola, Eurídice começou a inventar distrações para sentir-se viva.

Primeiro, foram as receitas. Eurídice ficou tão boa nessa coisa de cozinhar que cogitou até mesmo publicar as receitas que tinha escrito em seu caderninho, mas Antenor tinha razão: quem, afinal, compraria um livro escrito por uma dona de casa? Depois, foi a costura, mas quando Antenor viu a bagunça que a casa tinha se tornado, proibiu tudo aquilo. Por último, depois de muito tempo olhando a estante cheia de livros na sala, com a companhia da solidão e da Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice, Eurídice comprou uma máquina de escrever e nada poderia fazê-la parar de contar sua história. A história da mulher que poderia ter sido.

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Este foi um livro que tocou profundamente meu lado feminista. Eurídice é minha avó, que queria ser cantora, mas só aprendeu a limpar casas. Eurídice é minha mãe, que foi tão julgada por ter engravidado antes de casar e por não ter casado depois de engravidar. Eurídice sou eu, que nunca pude namorar antes dos 18 anos, enquanto os garotos da família namoravam antes dos 15.

Martha Batalha foi brilhante ao retratar a invisibilidade de Eurídice Gusmão. O que mais me chamou a atenção foi o fato de que Eurídice não apanhava do marido, não era proibida de sair, fazer suas vontades e até pôde escrever um livro e fazer faculdade, pois Antenor queria vê-la sorrindo. Muitas pessoas poderiam pensar: mas que vida boa, que homem bom! E aí está o problema: Eurídice não queria escrever as receitas para jogá-las no lixo, costurar escondida do marido ou escrever um livro e trancá-lo na gaveta. Eurídice queria mostrar pro mundo quem era, Eurídice queria ser. Em um livro pequeno e com muitas histórias entrelaçadas, Martha contou a história de milhares de mulheres que poderiam ter sido.

“Estou escrevendo um livro. É sobre a história da invisibilidade.”

O jantar seguiu em silêncio. Ninguém se importou em saber mais sobre o livro, se por acaso ela queria ver a obra publicada, se era uma história de amor ou de aventura, e quem era ela para começar a escrever assim. Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa, ou que era hora de acordar para a escola.

Quantas Eurídices ainda vivem por aí?

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