Editora Intrínseca, Resenhas

Título: Quem Era Ela? Título original: The Girl Before Autora: J.P. DelaneyAno: 2017 Editora: Intrínseca Número de páginas: 336

A história, primeiramente interessante, não apresentou sentido; depois de um tempo, você perde a vontade de saber o que vai acontecer, somente quer que acabe.

O mercado editorial foi tomado por livros com protagonistas femininas que não se tratam somente de um romance, basicamente depois do sucesso de Garota Exemplar, um livro bastante aclamado.

Por um lado isso é incrível, afinal, mulheres são tão capazes de estrelar um thriller quanto de encabeçar um romance, tão capazes de protagonizar uma ficção científica como são quando falamos de um drama; estava na hora das histórias contemporâneas retratarem esta realidade.

Por outro lado, quando o assunto é suspense, surgiu um mar de cópias baratas do livro de Gillian Flynn que não se pode ser domado. Uma qualidade ruim de escrita, um desenvolvimento pouco convincente e um plot twist medíocre têm cercado a maior parte dos livros que li que se promovem como seguidores da mesma linha de raciocínio de Flynn. Quando na verdade a única semelhança é ter uma mulher como protagonista mesmo.

Se existem as frases “Para os amantes de garota exemplar”, “Se você amou garota exemplar, vai amar esse!” e derivados associados ao livro, é provável que eu não vá gostar dele, que tenta se vender como o novo suprassumo da vez. Com Quem Era Ela?, infelizmente este foi o caso.

A premissa da história me soou bastante interessante, duas mulheres com idade e aparência similares dividindo a história com uma casa tão deslumbrante quanto misteriosa. Emma, de um ponto de vista passado e Jane, do ponto de vista presente. Emma estava lidando com o trauma subsequente a ter sua casa invadida por dois adolescentes e Jane tentava superar a morte de sua filha no parto.

– Ah, ele não te contou? As garotas que vieram antes. Nenhuma delas dura, sabe. Este é o ponto.

Edward, o dono da casa, tem uma série de restrições quanto ao seu uso, algumas restrições basicamente absurdas, mas ao conhecer a casa pela primeira vez, ambas se apaixonam e acham que vale à pena.

Não entrarei em detalhes sobre o desenvolvimento da história, basta relatar que ambas as mulheres, em épocas diferentes, fazem escolhas bastante parecidas quanto a casa e desenvolvem um relacionamento com Edward.

Emma inicialmente se muda para a casa com o namorado, mas termina o relacionamento pouco depois e passa a morar na casa sozinha. Muito da personalidade dela e de suas questões vão ficando mais claras ao longo do livro, e essas revelações nos ajudam a montar o cenário do passado.

– Sei que pode parecer estranho, considerando que eu nem conhecia a Emma. Mas me parece que ninguém verdadeiramente a conhecia. Todos com quem falei têm uma percepção diferente sobre quem ela era.

Jane, porém, começa a ficar intrigada com a história da mulher que ali morava antes e sobre a falecida esposa de Edward e as circunstâncias em que a casa foi construída. Mas eram tantos pontos soltos, tantas mentiras veladas e tantos caminhos a seguir que ela nunca conseguia chegar a uma conclusão de fato.

O ex-namorado de Emma, Simon, também participa da história das duas mulheres, de maneiras diferentes. Parecendo obcecado com a ideia de que Edward era responsável pelo que aconteceu no passado, ele oferece ajuda a Jane. Simon é sem dúvida um personagem bastante patético desde o início e é mais uma ponta solta que vamos tentando encaixar a história ao longo do livro.

Sociopatas são atraídos pelo vulnerável.

Minha primeira crítica negativa ao livro é a escrita, que me parece relaxada, e as escolhas que foram feitas à história pareciam fabricadas, um amontoado de twists que não casavam um com o outro e parecia somente objetivar surpreender o leitor pelo grande número de informações. Qualquer um ficaria perdido, porque o livro não segue uma linha de raciocínio.

A personagem de Emma, ainda que muito mais complexa do que primeiramente percebamos, se mostrou simplesmente insuficiente como protagonista. Até nos capítulos em que ela é a voz central, parece que tem alguém contando a história por ela. E isso porque não entrarei em debate sobre seu comportamento no geral, do contrário a resenha seria somente sobre ela.

Jane, ainda que assumindo um papel bem mais incisivo sobre dona de seu próprio destino, também apresentou atitudes extremamente contraditórias e ingênuas para alguém que se acreditava ser tão perceptiva sobre toda a estranheza da situação. Era quase como se o comportamento ingênuo funcionasse para alongar a história e manter o “suspense” a todo vapor até o fim.

O personagem de Edward é absurdo, mas ao mesmo tempo é o personagem mais conciso de todos, sendo seu comportamento claro desde o início ao fim. A personalidade dele foi com certeza a melhor trabalhada, ainda que repulsiva.

Por fim, o livro foi insuficiente. A história, primeiramente interessante, não apresentou sentido; depois de um tempo, você perde a vontade de saber o que vai acontecer, somente quer que acabe. Mais um livro completamente esquecível e que não cumpriu o que se propôs a fazer.

Por favor, faça uma lista de todos os bens que considera essenciais na sua vida.

Editora Bertrand, Nora Roberts, Resenhas

Título: O Colecionador Título original: The Collector Autora: Nora RobertsAno: 2017 Editora: Bertrand Brasil Número de páginas: 462

Independente do tema, Nora sempre nos entrega uma história tão palpável que parece que ela viveu todas aquelas experiências, mas aqui faltou aquele algo mais, aquela pitada para apimentar as coisas.

Nora Roberts e eu, uma relação de amor que dura mais do que muitos casamentos. Contudo, tivemos um leve desentendimento neste livro; nada que rompesse a relação, mas o bastante para reavaliar alguns pontos. Um livro de suspense daqueles que não te instiga muito a saber o que vai acontecer, mas ainda assim é Nora, e isto para mim é quase verdade absoluta. Vamos à história.

Segundas chances são mais assustadoras do que as primeiras, porque na segunda vez você sabe o quanto está arriscando.

A protagonista é Lila Emerson e trabalha como “housesitter”, alguém que se hospeda na casa de outras pessoas quando elas estão fora para manter o lugar em ordem e seguro; não bem como a profissão “caseiro”, que geralmente está ligada a figura masculina que também realiza pequenos reparos na casa entre outras coisas, mas algo parecido.

Em uma noite em que trabalha na casa de uma cliente, ela testemunha um suspeito assassinato seguido de homicídio após ver uma discussão entre um casal no prédio à frente – ela vê o que acontece porque costumava espiar a dita mulher que morava no apartamento; sim, a Nora traz aqui uma personagem a la vouyer, o que é dito como estranho, mas não muito grave no livro. Eu acho esquisitíssimo, intrusivo e um tanto sem sentido, mas ok.

As vidas das outras pessoas simplesmente a fascinavam.

A mulher foi empurrada da janela enquanto o homem foi posteriormente encontrado morto. Lila era a única testemunha do caso, ainda que não tenha visto o homem empurrando a mulher de fato, somente a discussão anterior.

Em meio à investigação ela conhece Ashton Archer, um artista que era irmão do suposto assassino. Confiante na índole de seu irmão, Ashton recruta Lila para ajudá-lo a descobrir a verdade – outro ponto aqui é que os dois resolveram seguir por conta própria para achar o(s) assassino(s) sem nem ao menos esperar que a polícia tentasse fazer seu trabalho, mas ok +1.

O livro se desenvolve a partir daí e aos poucos eles vão juntando peças, mergulhando em um universo ligado à arte, antiguidades, poder, e ganância. E ao longo da história claramente eles se aproximam e se apaixonam perdidamente.

– Em alguns dias, a música não está afinada, mas é sempre uma canção que vale à pena cantar.
– Esta é a melhor descrição de um bom casamento que eu já ouvi.

O romance é morninho, mas doce. É gradual e parcialmente acreditável, mas nada que seja notoriamente espetacular. Os personagens em si não são muito cativantes e não tem características interessantes, era mais um tanto faz do que qualquer outra coisa.

Aliás, o problema do livro em si é. Como é comum nos livros da Nora, há uma riqueza absurda de detalhes e uma noção clara de que houve muita pesquisa envolvida. Independente do tema, Nora sempre nos entrega uma história tão palpável que parece que ela viveu todas aquelas experiências, mas aqui faltou aquele algo mais, aquela pitada para apimentar as coisas.

A criatividade é meu Deus. A tecnologia, meu adorado amante.

A personagem da Lila apresentava algumas inconsistências a partir do que era dito que ela era e o seu comportamento de fato. A escolha de profissão dela era dito ser em virtude de seu desprendimento e desinteresse por compromissos longos, mas não era bem isso que ela transparecia. Em Ashton, não houve nada de muito marcante que eu consiga lembrar para dizer.

No geral, não é um livro ruim, mas não é bom. Não é digno de um trabalho da Nora e não parece ter sido escrito pelas mãos dela, mas, não se pode acertar sempre, correto? Quem gosta do gênero, e principalmente de arte, pode tirar algum proveito da história em si. Mas como um conjunto completo, acho que o livro não atendeu às expectativas.

O amor, mesmo quando não é real, pode matar.

Editora Bertrand, Resenhas
Título: A Mentira Título original: The Liars Autora: Nora Roberts Ano: 2016 Editora: Bertrand Brasil Número de páginas: 489

Grandes pontos por tratar sobre relacionamento abusivo, seus reflexos em diversos âmbitos da vida da vítima e também sobre superação.

Shelby Foxworth está passando por uma grande provação em sua vida: a morte de seu marido e a grande rede de mentiras que descobre estar associada ao homem com quem viveu por anos. De repente, depara-se com uma montanha de dívidas e com a resolução de que nem o nome do pai de sua filha de três anos, Callie, era real.

Após vender o que podia da casa onde morava para suprir as dívidas, ela decide deixar o passado para trás e parte para a sua cidade natal em busca também de reparar erros cometidos com seus familiares e amigos; lá, ela conhece Griff Lott, que vai conquistar não só a ela como também sua filha, e descobre que os segredos que seu marido mantinha a perseguiam onde quer que fosse.

Com tantos livros da Nora nas costas, seria compreensível se eu me cansasse. Até então, não aconteceu. Então simbora que a resenha é novamente sobre ela. A Mentira é uma história sem muitas surpresas, ainda que se trate de um suspense romântico, mas é um livro pelo qual tenho um carinho muito grande em virtude dos personagens cativantes e basicamente apaixonantes. Tipo te dar vontade de colocar numa caixinha, sabe?

Ela parece algo que fora escrito por poetas, até os olhos tristes.

De cara, algo que curti muito neste livro foi o fato da personagem principal ser alguém que está lutando para ser independente e se destituir da ideia de que ela era alguém insuficiente. As personagens da Nora são, em geral, mulheres fortes, decididas e bem sucedidas, o pacote completo; e enquanto isso é incrível e inspirador, é bacana poder ver a pessoa em formação também. E Shelby é definitivamente alguém que está “buscando seu lugar ao sol”.

Shelby literalmente fugiu com o marido quando era mais jovem e passou a viver um relacionamento abusivo, ainda que ela não exatamente soubesse que estava em um. Cortou laços com a família e amigos porque Richard, seu ex-marido, não permitia tal contato e passou a viver em função de cuidar da casa, dele, e mais tarde de sua filha.

Abraçou a ideia de que era somente para isso que sua vida servia. E claramente ser dona de casa e mãe são papeis dificílimos e que carregam grande mérito, o grande porém é quando falamos de escolha: não foi a vida que ela escolheu ter, e sim aquela que se convenceu de que merecia. Principalmente quando a culpa pela distância que mantinha das pessoas que amava pesava sobre ela.

Ela tem uma personalidade bastante admirável enquanto mulher e enquanto mãe. É determinada e mais forte do que pensa ser. Callie é uma daquelas crianças que você conhece nos livros e gostaria de adotar. Carinhosa, engraçada e animada. À medida que o livro se desenvolve, ela vai ganhando mais confiança nela mesma e constrói uma vida em que ela depende somente de si para ter sucesso e felicidade. Griff? Bem, quem leu Nora sabe que ela manja e muito de construir personagens masculinos dignos.

– A questão é, se não esperarmos um minuto, um instante, um.. Alguma coisa, vamos acabar nus na varanda.

– Tudo bem.

– Ok, então… – Ele abaixou as mãos, deu um cauteloso passo para trás. – Vamos esperar um minuto.

– Eu quis dizer que tudo bem acabarmos nus na varanda.

Ele ficou sem ar de novo. – Você está me matando, Ruiva.

Gosto muito do ritmo com o qual o relacionamento deles se desenvolveu e de como ele sempre se mostrava disposto a ajudar e a respeitar o tempo de Shelby, principalmente considerando o período tempestuoso pelo qual estava passando.

A família de Shelby também é um prato cheio e divertido. Pessoas unidas e leais, apesar de tanto tempo longe, ela foi recebida por eles prontamente de modo que só pessoas que realmente se importam com você fariam. Quando os problemas começam a surgir, não largam o barco com o discurso de que ela tinha levado uma tempestade à vida de todos, mas se mantêm firmes. É muito xodó esse elenco do livro, de verdade.

A parte que menos me interessou na história toda foi o suspense, como já dito. Eu gosto bastante de quando livros trabalham esta questão de surpresas negativas quanto a pessoas próximas a você porque nos relembra que infelizmente fica cada mais difícil apostar as fichas em outra pessoa, mesmo que ela more com você.

Gosto de quando segredos são envoltos ao suspense também, mas acho que aqui ficou faltando a pimenta, entende? Foi um suspense bem morno com um clímax pouco surpreendente. O que me ganhou de verdade foi o que estava acontecendo além disso. Ao todo, uma leitura gostosa que deixa saudade dos personagens. Recomendado.

Grandes pontos por tratar sobre relacionamento abusivo, seus reflexos em diversos âmbitos da vida da vítima e também sobre superação. Acho que cada vez mais isso serve para olharmos para nossos relacionamentos e ponderar. E não estou falando só sobre relações amorosas. Nada de deixar parente ou amigo te fazer de tapete, mantenha ao seu lado quem lhe quer bem e quem lhe faz bem (atentando também que nem sempre boas intenções se traduzem em boas ações). No fim, valorize o seu sorriso e saberá valorizar quem é motivo dele.

Sempre me pareceu que as coisas são mais excitantes quando você não está procurando por elas e mesmo assim as encontra.

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