Editora Companhia das Letras, Quadrinhos na Cia, Resenhas
[Resenha] Repeteco
26.jan.2017
Título: Repeteco Título original: Seconds Autor: Bryan Lee O’MalleyAno: 2016 Editora: Quadrinhos na Cia Número de páginas: 336

Repeteco é uma graphic novel linda, linda. Os desenhos e a coloração me fascinaram demais e a história ficou ainda mais interessante nesse formato.

ATENÇÃO:

A resenha a seguir contém alguns quadrinhos retirados do livro, mas não há spoiler.

Katie era uma talentosa chef de cozinha que há quatro anos havia montado um restaurante com alguns amigos: o Repeteco. Naquela época, o restaurante era sua cara e ela se sentia feliz com a realização, mas agora que ela beirava os 30 anos, seu sonho era montar um lugar diferente e que carregasse seu nome.

Ocorre que o prédio escolhido por Katie, apesar de ter muito potencial, era velho – lê-se: tinha muitos, muitos problemas que demorariam a serem resolvidos antes da inauguração do restaurante – e, por isso, a garota andava muito estressada e sentindo-se presa ao Repeteco, já que ela até mesmo alugava um quarto naquele prédio para não ter gastos altos.

Sabe aquele acontecimento na vida que a gente tem uma vontade enorme de mudar? Seja o corte de cabelo, o lado da cama, a faculdade ou o emprego? Pois é. Depois que o relacionamento de Katie e Max havia terminado, ela estava enlouquecida para ter seu próprio canto – que, pra uma chef de cozinha, obviamente significa ter seu próprio restaurante. E aí foi em uma noite qualquer, no seu quartinho em cima do Repeteco que algo estranho aconteceu.

A Lis – esse estranho e misterioso espírito do lar – desapareceu da mesma maneira que apareceu e foi só no dia seguinte, quando várias coisas deram errado, que Katie lembrou daquela garota na cômoda e achou um embrulho na gaveta, que poderia ser a chance de mudar aqueles acontecimentos: um repeteco.

Porém, como bem aprendemos nos livros e filmes sobre o assunto, mudar o passado nunca acaba bem! Com a ajuda de Hazel – uma funcionária do Repeteco que estranhamente deixava roupas e comida para Lis, sem saber que ela existia mesmo -, Katie tem que se virar pra tentar desfazer todo o rolo que fez comendo vários cogumelos.

Repeteco é uma graphic novel linda, linda. Os desenhos e a coloração me fascinaram demais e a história ficou ainda mais interessante nesse formato. A narração é bem-humorada, a amizade entre Katie e Hazel é fofa demais e a única coisa descartável é o relacionamento de Katie e Max, que sinceramente, poderia nem existir, mas já que existe né…?

A Companhia das Letras está de parabéns por trazer esse livro para o Brasil. Bryan Lee O’Malley é um autor diferenciado e espalhou alguns de seus personagens da série Scott Pilgrim (já lançado aqui pela editora) nos desenhos da Katie, mas não diga que eu contei!  Não poderia deixar de elogiar a tradução de Érico Assis, a começar pela sacada (difícil) do título. E bom… Depois de ter passado por muita loucura, aposto que se a Katie fosse dar um conselho seria esse: não coma cogumelos – se é que me entende!

Desventuras em Série, Editora Companhia das Letras, Resenhas
Título: Mau Começo –  Desventuras em Série #1 Título original: The Bad Beginning Autor: Lemony SnicketAno: 2001 Editora: Companhia das Letras Número de páginas: 152

A narração de Snicket é hilária e irônica. A todo momento ele tenta fazer o leitor desistir dos livros, dando ênfase em como os irmãos Baudelaire são desafortunados e de como a história é desagradável e infeliz.
Título: A Sala dos Répteis –  Desventuras em Série #2 Título original: Autor: Lemony SnicketAno: 2001 Editora: Companhia das Letras Número de páginas: 184

A narração de Snicket é hilária e irônica. A todo momento ele tenta fazer o leitor desistir dos livros, dando ênfase em como os irmãos Baudelaire são desafortunados e de como a história é desagradável e infeliz.

Mau Começo e A Sala dos Répteis são os dois primeiros dos 13 livros das Desventuras em Série. Apesar de bastante conhecida, até então eu não havia tido contato com a série, nem por meio dos livros, tampouco do filme lançado em 2004.

Com a notícia de que a Netflix estaria trazendo de volta essa coleção para as telas, em forma de seriado, decidi que já passava da hora de conhecer os órfãos Baudelaire e o assustador Conde Olaf e cá estou para apresentá-los e contar minha primeira impressão.

Violet é a mais velha dos 3 filhos dos Baudelaire. Com 14 anos, a garota é descrita como uma das maiores inventoras de seu tempo. Klaus, o irmão do meio, é um amante de livros muito inteligente. E por último, Sunny, ainda bebê, adora morder e inventar palavras.

Os infortúnios dos jovens Baudelaire começam logo nas primeiras páginas do Mau Começo e o narrador e personagem indireto Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler) deixa claro, bem claro, que este não é um livro para qualquer um.

Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. (Mau Começo)

Após um terrível incêndio que leva a vida de seus pais, os órfãos Baudelaire são entregues aos cuidados de Conde Olaf, um parente distante que apenas quer a grande fortuna das crianças e planeja coisas mirabolantes – Snicket explicaria esta palavra em sua narração – para conseguir.

Usando suas técnicas e inteligência, os irmãos tentam de todas as formas pedir ajuda e fugir de seu terrível tutor, sendo ele, porém, muito esperto e sem escrúpulos. Depois dos imprevistos em seu plano inicial no primeiro livro, Conde Olaf volta a infernizar a vida dos órfãos em A Sala dos Répteis, logo quando eles haviam sido adotados pelo amoroso Tio Monty e estavam felizes. É claro, sabemos que a felicidade dos Baudelaire não dura muito.

De todas as pessoas no mundo com vidas deploráveis – e vocês bem sabem que há um bom número delas -, os jovens Baudelaire ganham o prêmio, expressão aqui usada para significar que eles passaram por mais coisas abomináveis do que qualquer outra pessoa que conheço. (A Sala dos Répteis)

A narração de Snicket é hilária e irônica. A todo momento ele tenta fazer o leitor desistir dos livros, dando ênfase em como os irmãos Baudelaire são desafortunados e de como a história é desagradável e infeliz. Ele dedica todas as suas obras à Beatrice – querida, adorada, morta. Me arrisco em dizer que a narração é o principal ponto da série de livros: ou você ama ou você odeia.

Desventuras em Série pode parecer simples livros infanto-juvenis, mas carrega críticas de gente grande. No primeiro livro, por exemplo, o assunto de adoção e herança é abordado do ponto de vista de órfãos que somente querem comprar uma casa e viver com uma família decente, mas que, por força de lei, são obrigados a ficar com um homem asqueroso que somente quer sua fortuna.

Os adultos dos livros estão sempre ocupados demais para levar em consideração a opinião dos Baudelaire sobre o Conde Olaf, seus planos e disfarces. “Preciso atender esta ligação; ora, ele somente pede a vocês que ajudem em casa, isto não é exploração, é agir in loco parentis; crianças, este não é o Conde Olaf, vocês estão apenas abaladas por tudo que já passaram”. Pode parecer muita fantasia, mas será que nós nunca deixamos de ouvir coisas importantes das crianças (principalmente quando não são nossos filhos) por estarmos ocupados demais?

Mau Começo foi um ótimo começo e A Sala dos Répteis foi uma ótima continuação para mim, que estou apaixonada por esta série de livros pequenos, irônicos e desagradáveis. Ah, e hoje estreou o seriado na Netflix, com Neil Patrick Harris no papel do Conde Olaf, corre lá!

Há muitos tipos de livros no mundo, o que faz sentido, porque há muitos e muitos tipos de pessoas, e os gostos são diferentes. Por exemplo, pessoas que detestam histórias em que acontecem coisas horríveis a criancinhas deveriam fechar este livro imediatamente. (Mau Começo)

E aí, você se interessou por essa história infeliz?

Editora Companhia das Letras, Resenhas
Título: Gigantes Adormecidos Título original: Sleeping Giants Autor: Sylvain Neuvel Ano: 2016 Editora: Companhia das Letras Número de páginas: 310

É um livro muito bem escrito, com uma história incrível e que prende o leitor do começo ao fim, deixando muitos mistérios no ar. E o final é maravilhoso. Resumindo: um livro digno de ser listado nos meus favoritos!

Gigantes Adormecidos é um livro de ficção científica que… Pause. Primeiramente, eu gostaria de agradecer às mentes geniais e maravilhosas que decidiram focar os lançamentos da editora nesse gênero, em especial. Ficção científica, apesar de fazer sucesso nas telas de cinema, é um gênero pouco lido, talvez pelas explicações científicas difíceis de serem absorvidas por meros mortais como nós, ou ainda pela dificuldade em imaginar as cenas que são, literalmente, de outro mundo.

Agora sim, vamos lá! Gigantes Adormecidos é o primeiro livro da trilogia Os Arquivos Têmis e começa com um epílogo de quando Rose Franklin, uma menininha de 11 anos, decide pedalar em sua bicicleta nova e, atraída por uma estranha e linda luz azul turquesa em um bosque, acaba caindo em cima de um gigantesco pedaço de metal em forma de uma mão, que simplesmente estava enterrado abaixo de onde seus pequenos pés pisaram.

– A mão está aberta, com os dedos muito juntos e ligeiramente dobrados. É como se segurasse algo muito precioso ou um punhado de areia e tentasse não derrubar nada. Existem sulcos como os que na pele humana normalmente se dobram, e outros que parecem meramente decorativos. Todos emitem o mesmo brilho turquesa, que mostra a iridescência do metal. A mão parece forte, mas… sofisticada é a única palavra que me vem à mente. Acho que é uma mão feminina.

Anos mais tarde, a pequena Rose torna-se PhD em Física e, quando a 3ª Subtenente Kara Resnik e o 4º Subtenente Ryan Mitchell encontram, enquanto faziam uma missão do Exército, um antebraço gigante com luz turquesa que estava enterrado, idêntico à mão encontrada anteriormente, ambos são convidados por um estranho homem sem nome a estudar aquelas partes gigantes que muitos já haviam desistido de decifrar.

– Deve haver uma explicação muito mais plausível, mas não consegui descobrir qual. Como cientista, só posso dizer que, hoje, a humanidade não possui recursos, conhecimento ou tecnologia para construir algo semelhante. […] Assim, respondendo à sua pergunta, eu não acredito que essas coisas tenham sido construídas por seres humanos. Pode tirar as próprias conclusões dessas palavras.

Dessa forma, com a ajuda de Vincent Couture, um genial estudante universitário que decifrou alguns códigos escritos nas partes gigantes encontradas, a equipe do homem misterioso continuou a estudar sobre o que estava acontecendo e o motivo daquelas partes estarem ressurgindo.

Gigantes Adormecidos me deixou eufórica, a começar pela capa. Toda a história é contada através de entrevistas e relatórios arquivados, o que faz o leitor sentir como se estivesse mexendo em algo proibido em algum laboratório muito importante. Eu não sei descrever tudo que senti lendo esse livro, porque eu simplesmente AMEI! Estou louca pela continuação, que só será publicada no ano que vem, infelizmente. É um livro muito bem escrito, com uma história incrível e que prende o leitor do começo ao fim, deixando muitos mistérios no ar. E o final é maravilhoso. Resumindo: um livro digno de ser listado nos meus favoritos!

– Gosta de histórias? Espero que sim, porque vou contar uma que ouvi na infância. […] Preparando-se para uma guerra inevitável, o imperador construiu máquinas gigantescas à imagem e à semelhança de seu povo. Eram armas indestrutíveis e tão poderosas que poderiam acabar com uma pequena cidade ou matar dez mil homens em questão de segundos. […] Passaram-se anos, séculos, e a guerra nunca aconteceu. Depois de dois mil anos, as máquinas foram retiradas da colônia. Uma foi deixada para trás, uma gigante chamada dhehméys pelo povo. Após ser desmontada, as partes foram espalhadas pela colônia. Acreditava-se que, quando o povo alcançasse determinado estágio em sua evolução, seria capaz de reencontrar a máquina e usá-la para se defender, caso a guerra acontecesse.

Editora Companhia das Letras, Resenhas

Título: A Vida Invisível Título original: Autor: Martha Batalha Ano: 2016 Editora: Companhia das Letras Número de páginas: 188

Este foi um livro que tocou profundamente meu lado feminista. Eurídice é minha avó, que queria ser cantora, mas só aprendeu a limpar casas.

Oi gente! Sei que vocês devem estar lendo com a voz da Rapha, mas quem vos escreve é a Cami! Fui colunista no Equalize da Leitura em 2012/2013, acabei saindo e agora estou retornando porque a Rapha estava louca de saudades da minha pessoa, uhul! Espero que gostem do meu trabalho e… Vamos lá!

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“Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido”. Essa frase diz muito sobre a vida de Eurídice, nossa personagem principal, que vive no Rio de Janeiro, na década de 1940, e descobre as desvantagens de ser invisível.

Eurídice era uma garota que crescia com muitos sonhos em uma época em que não era possível realizá-los. Ela queria ser tantas coisas, e teria sido, se não fosse obrigada a ser somente bela, recatada e do lar.

Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas.

Após sua irmã mais velha, Guida, ter fugido de casa, decepcionando Seu Manoel e Dona Ana, Eurídice prometeu que seria a melhor filha do mundo e, assim, tratou de largar o sonho de ser flautista e casou-se com Antenor, um homem bom, muito bom, pois colocava dinheiro dentro de casa e não levantava a mão para a esposa.

Nos momentos em que ficava em casa, quando o marido saía para trabalhar e os filhos, Cecília e Afonso, iam para a escola, Eurídice começou a inventar distrações para sentir-se viva.

Primeiro, foram as receitas. Eurídice ficou tão boa nessa coisa de cozinhar que cogitou até mesmo publicar as receitas que tinha escrito em seu caderninho, mas Antenor tinha razão: quem, afinal, compraria um livro escrito por uma dona de casa? Depois, foi a costura, mas quando Antenor viu a bagunça que a casa tinha se tornado, proibiu tudo aquilo. Por último, depois de muito tempo olhando a estante cheia de livros na sala, com a companhia da solidão e da Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice, Eurídice comprou uma máquina de escrever e nada poderia fazê-la parar de contar sua história. A história da mulher que poderia ter sido.

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Este foi um livro que tocou profundamente meu lado feminista. Eurídice é minha avó, que queria ser cantora, mas só aprendeu a limpar casas. Eurídice é minha mãe, que foi tão julgada por ter engravidado antes de casar e por não ter casado depois de engravidar. Eurídice sou eu, que nunca pude namorar antes dos 18 anos, enquanto os garotos da família namoravam antes dos 15.

Martha Batalha foi brilhante ao retratar a invisibilidade de Eurídice Gusmão. O que mais me chamou a atenção foi o fato de que Eurídice não apanhava do marido, não era proibida de sair, fazer suas vontades e até pôde escrever um livro e fazer faculdade, pois Antenor queria vê-la sorrindo. Muitas pessoas poderiam pensar: mas que vida boa, que homem bom! E aí está o problema: Eurídice não queria escrever as receitas para jogá-las no lixo, costurar escondida do marido ou escrever um livro e trancá-lo na gaveta. Eurídice queria mostrar pro mundo quem era, Eurídice queria ser. Em um livro pequeno e com muitas histórias entrelaçadas, Martha contou a história de milhares de mulheres que poderiam ter sido.

“Estou escrevendo um livro. É sobre a história da invisibilidade.”

O jantar seguiu em silêncio. Ninguém se importou em saber mais sobre o livro, se por acaso ela queria ver a obra publicada, se era uma história de amor ou de aventura, e quem era ela para começar a escrever assim. Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa, ou que era hora de acordar para a escola.

Quantas Eurídices ainda vivem por aí?

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